Seja Bem Vindo!

Seja bem vindo!

sábado, 31 de julho de 2010

Menor abandonado

Você já olhou bem nos olhos ou nas feições de um cão sarnento, vira-lata, famélico de modo os lados da sua barriga encostar uma na outra, talvez já com cinco, sete ou dez dias sem comer nada de substancial, a não ser restos de lixo, migalhas azedas já com vermes, tiradas a força e a todo custo dos sacos de lixos. A língua de fora sedento por um gole de água, mesmo que seja água quente aquecida pelo sol escaldante do verão parada na sarjeta. Acha que é muito... Rolou uma lágrima? Nem comecei ainda!

O rabo enfiado no meio das pernas de tanto levar chutes, empurrões, “xôs”, “passa”, “vai te catar”... Os olhos tristes, vazios e desacreditados, sem expressão, sem esperança, sem rumo e sempre esperando o pior da vida. As orelhas cabisbaixas denunciando o medo eminente por nós, os únicos animais capazes e dotados de toda complexidade e inteligência da qual Um Criador designou-nos para que tomássemos conta de toda a sua criação; que indiferentemente insistimos em escorraçar esses pobres coitados jogados a sorte neste mundo incrédulo, egoísta, agitado, apressado, inseguro, insano, desumano ao ponto de pais matarem seus próprios filhos e vice-versa.

Outro dia e porque não dizer quase todo dia, encontrei um destes. Devia ter uns quatro para cinco meses de vida e já apresentava os mesmos sintomas de um vira-lata já adulto e calejado pelos anos de abandono e maus tratos. Esse pequeno e indefeso tinha o pelo marrom claro e sem nenhuma mancha, focinho curto e corpinho espichado parecendo um primo pobre e distante de algum basset. A barriguinha funda de fome e ao mesmo tempo abarrotada de vermes. O rabinho no meio das pernas e as orelhinhas ora em alerta por causa dos pesados carros que assombravam a Avenida Pensilvânia, ora cabisbaixa pelo medo dos passos apressados dos humanos indiferente na calçada. Pude ver ainda em seus olhos aquele olhar de lambeta, de quem pretende fazer muitos amigos. Pobre coitado; pensei eu: _ Se ninguém o adotar... Tentei persuadi-lo a ir até em casa, como sempre faço, para lhe oferecer um pouco de água fresca, quem sabe algum filé roubado da geladeira da minha mãe e depois de um bom descanso, banho e uma visitinha básica num veterinário quem sabe um lar – eu sempre consigo um lar adotivo, mas são tantos! Porém, o seu medo foi maior que as minhas palavras ingênuas na tentativa de atraí-lo para casa da minha mãe: _ “bebê bonitinho, vêm com o papai...”. Ele até tentou! Seu rabinho chegou a dar umas abanadinhas, mas ao me aproximar acabou ficando desconfiado e atravessou a avenida apressado. De certo já havia levado muito chutes por aí.

Teve outro dia, que estava degustando um senhor “x egg salada” de um carrinho de lanche e me apareceu um quatro patas bem grandão, perdido, com aquele olhar de pidão que só eles sabem fazer. Seu faro apurado degustando no lugar da sua boca enorme cada item do meu saboroso lanche. Não resisti e comecei a dar pedaços e mais pedaços pra ele, o qual os engolia prontamente sem ao menos dar uma mastigadinha. Pensei: _ Vai com calma amigão! Foi quando o dono do trailer esbravejou comigo!

_ Para de dar pro cachorro que depois ele acostuma e vai ficar aqui enchendo o saco!

_ E eu com isso! – retruquei prontamente. Isso é problema seu. O meu é dar de comer a ele! E se eu o ver maltratando, chutando algum vira-lata taco fogo nesse trailer com você dentro que não vai nem saber quem foi! Arrematei injuriado.

Sorte a minha o dono do trailer ter ficado calado, porque o homem era grande! Bom, pra concluir essa aventura de homem valente, o cachorrão acabou comendo todo o meu lanche e depois me deu uma bela lambida na minha mão enquanto eu fazia um cafuné em baixo da sua boca. E a minha fome? Eu fui pra casa pegar alguma sobra da geladeira.

Já pararam para pensar como é interessante a lambida desse bicho em especial? Mesmo um vira-lata sarnento sabe agradecer quando você dá de água para ele beber! Ele te olha nos olhos, dá àquela lambida encharcada em alguma parte do seu corpo, rosto, mão, braço e depois cai fora.

E já pararam para pensar em como eles resgatam a confiança em nós humanos novamente e sempre que for preciso, mesmo depois de tantos anos de maus tratos nas ruas, chutes, água fria no cangote, bombinhas em suas caldas colocadas por diabinhos sem remorso. Bastam uns dias na sua casa, um bom banho, remedinho para vermes e vacina anti-rábica, comidinha simples e quentinha, água fresca e um cantinho com sol e sombra para ele descansar seu velho e cansado esqueleto para que ele o tenha como o seu dono! Ele o defenderá, atacará qualquer um que queira fazer mal a você ou entrar em sua casa sem ser convidado. Ele o terá no mais alto conceito e você será para ele tudo nessa vida!

Realmente eles são dependentes e sempre o serão. Costumo dizer que se você quer uma criança que não cresça jamais, tenha um cachorro.

“Ah... mas eles mordem!” E mordem mesmo! Mecha com um de seus filhos para ver o que você não faz com o indivíduo! Dê-lhes carinho e amor e os terá em dobro todos os dias. Terá sua lealdade, companheirismo, seu eterno olhar de que estou aqui amigo para o que der e vier. Escolhi você para ser meu dono porque você me entende e me aceita do jeito que eu sou. Farei festa sim todas as vezes que você sair e voltar para mim, mesmo que vá até ali na padaria e volte depois de alguns minutos!

Se ao menos rolou uma lágrima, ótimo. Ou se, apenas ficou emocionado, parabéns – você ainda é humano. Caso contrário, não tem importância, basta apenas não judiar; você pode até ser indiferente, mas não os maltrate.

Agora, depois de conhecer um pouquinho o dia-a-dia destes bichinhos indefesos das ruas, imagine você olhando direto nos olhos de uma criança com pouco mais de quatro anos de idade, fuçando lixão para conseguir alguma coisa para comer! Isso vai mudar quando gente? Ou só vai piorar de como já está?

E viva o consumismo!

Nenhum comentário:

Postar um comentário