Seja Bem Vindo!

Seja bem vindo!

O Ceifador - Conto Primeiro: A Festa.

_ Sandra, ande logo ou vamos nos atrasar! – exclamou ele nem tanto irritado, porém mais intrigado com a festa que estava por vir do que com qualquer outra coisa.

_ Hã... – resmungou ela para ele indiferente.

Stawart se encontrava em pé encostado na parede perto da porta de saída do quarto de hotel, pronto em seu terno Armani, bem passado e incrivelmente impecável para uma simples festa corriqueira. De onde ele estava,  tinha uma visão privilegiada para o quarto, onde podia ver sua mais nova namorada colocando o vestido preto de cetim, enquanto aquele pedaço de tecido fino escondia vagarozamente as coxas bronzeadas e bem entornadas dela. A calcinha de cetim também preta ia sendo ocultada pelo vestido. Ele a viu ajustar o pequeno vestido com as mãos, acertando-o em seu quadril de anca larga, enquanto ela mexia o traseiro para os lados em tom brincalhão e ao mesmo tempo em provocação, sabendo que ele a observava.
Ela virou-se para onde ele estava com um olhar de zombeteira, enquanto calçava seus sapatos da Ferraro, de um preto cintilante sem igual, sallto exageradamente alto e bico fino. Por fim, deixou escapar uma piscadela provocante. Depois virou-se novamente de frente para o espelho e acomodou os fartos seios para dentro do apertado vestido.

Stawart, ainda encostado na porta, se vangloriava para si mesmo ao observar aquela beldade morena pentear os cabelos negros, encaracolados e sedosos, enquanto recordava-se de quando e como a conhecera. De certa forma não precisou conquistá-la, fora uma tacada de o destino colocar aquela linda morena em sua vida. Agora sabia mais do que nunca que era um homem de sorte, não fizera o menor esforço para conquistá-la, ela apenas caíra do céu em seu colo em uma noite da qual ele não esperava muita coisa.

Suas lembranças o levaram de tal forma para aquele dia, que ele podia novamente ouvir o barulho da chuva cair, sentir o perfume que ela usara naquela noite e provar daquele beijo ardente na primeira vez. Era um sábado inquietante, mesquinho e ingrato, de uma noite muito fria, com poucas pessoas andando pelas ruas do centro, assim como nos bares quase vazios também. Ele acabara de estacionar sua Mercedes preta do outro lado da rua, em frente ao bar mais badalado da cidade, o Calton Blues! Apagara apenas as luzes dos faróis e aguardava indeciso se entraria ou não no bar. Uma dúvida que não era costumeira, fazendo com que seu corpo ficasse ali, parado, à toa, aguardando uma resposta do seu próprio eu.

Foi quando avistou um casal interessante perto da entrada do Calton Blues, homem e mulher interessante. Ele, todo de esporte fino e ela, praticamente, vestida para matar - pensara ele na ocasião. Porém, Stawart notara que o homem gesticulava demais para uma simples conversa amigável e pareceu-lhe a primeira vista, estar alterado com a moça. Uma briga doméstica talvez estivesse ocorrendo ali, bem na sua frente. Por fim, o valentão gritara algumas palavras de baixo escalão para a moça e um estalido de tapa ecoou na avenida. O sujeito entrou em seu carro, saindo logo em seguida em disparada, enquanto os pneus cantavam avenida afora sob o asfalto encharcado da água em consequência da forte chuva que acabara de cair. Quando Stawart voltou seus olhos para a moça, ela estava encostada na parede tentando recompor-se da humilhação, permanecendo ali por alguns minutos imóvel para só depois entrar no bar.

Decorridos mais alguns minutos dentro de seu carro, ele resolveu  deixar seu porto seguro e caminhar tranquilo em direção ao Calton Blues. Preferiu assim, para que ela não soubesse que ele assistira de camarote toda aquela briga de casal. Terminou de atravessar tranquilamente a rua deserta, subiu os degraus do bom e velho bar sem pressa alguma e cumprimentou o funcionário que recepcionava os clientes na entrada.
_ Boa noite Senhor Stawart! O bar se encontra vazio hoje...
_ Boa noite Thomas. – interrompeu o porteiro num cumprimento seco.

O porteiro ficou um tanto constrangido, mas se reconpôs  desconsiderando o destrato pessoal para com a pessoa dele e se concentrou no seu trabalho. Aprendera com tempo que podia ser amigo dos clientes, mas desde que eles assim o desejassem, caso contrário, se portaria como um porteiro apenas e nada mais.

Stawart tão logo entrou no salão e avistou aquela morena estonteante sentada sozinha a uma mesa de canto, o lugar mais reservado e escuro do bar. Ela bebericava despreocupadamente o que lhe pareceu a primeira vista um Martini, como se nada houvesse acontecido a pouco do lado de fora. A mulher fatal usava na ocasião um vestido azul marinho extremamente curto e com suas pernas cruzadas o pequeno vestido acabava cobrindo apenas as suas nádegas, deixando suas coxas grossas e morenas expostas em baixo da mesa. Os seios fartos apertados no pequeno vestido, em meio aquela pouca luz, faziam com que eles tivessem vida própria, desejando saltar dali e conquistarem suas próprias liberdade. Ela realmente era maravilhosa, virtuosa e gostosa – Stawart mordiscou os lábios desejando estar com ela, deitado numa cama, assistindo aquele anjo se despir lentamente para ele, revelando os seios carnudos de bicos escuros, o ventre nu, as curvas da cintura segurando o pequeno vestido azul marinho nos quadris mesmo que por pouco tempo, até que aquele pequeno pedaço de pano garboso caísse por fim ao chão revelando o manjar dos deuses. Ficaria a mostra apenas a sua calcinha, que distintamente tentaria em vão, esconder inutilmente o seu sexo. Percebeu que acabara tendo uma ereção com aqueles desejos sórdidos por uma mulher que se quer a conhecia. Ficou um tanto embaraçado e passou direto pelo bar indo ao toalete para dar um tempo até que aquele furor passasse.

Molhou o rosto com a água quente que caia da torneira esperando que seu “amiguinho” acalmasse. Stawart olhava para o espelho e não via a sua imagem, ainda tinha aquela mulher em sua mente. Via o rosto dela sereno, a boca de lábios carnudos sorrindo levianamente para ele. Ele ainda não compreendia a natureza daquela mulher, mas ela, de certa forma, o deixava calmo.

Percebendo que passara aquele furor, o desejo carnal que aquela presença avassaladora e misteriosa despertara nele, soube que podia voltar ao salão. Dali, caminharia despreocupado até o bar e pediria uma dose de uísque com gelo. Tomaria uns três tragos e se o lugar continuasse muito calmo, iria até o outro lado da cidade para tentar a sorte em alguma casa de jogatina. Quanto à morena? – pensou ele sorrindo. Dane-se ela! Provavelmente o brutamonte volte para apanhá-la. É inadmissível que aquele crápula a deixe sozinha, uma felina tão linda e desnuda como ela, mesmo que por uma briga boba de casal. Com estes pensamentos Stawart voltou para o salão e caminhou até o bar pedindo sua primeira dose das três que pretendia tomar.

A noite se arrastava como Stawart previra; lenta e tranqüila, dada às fortes chuvas da tarde para a noite que não paravam se quer por um minuto. E como o salão continuava vazio, pensava agora que talvez tivesse sido melhor ter passado primeiro na casa de apostas do outro lado da cidade e tentado a sorte, quem sabe ganhasse um extra para farrear com as putas das ruas mais tarde. Gostava dessa vida e já estava nela desde os seus dezessete anos de idade. Curtia bastante levar para cama duas, três e em algumas chegou a levar até casais para casa, a fim de saciar suas vontades, seus desejos carnais. Abusara muitas vezes das generosidades daquelas mulheres da rua que ganhavam seu dinheiro entre bofetões e beijos ou, na maioria das vezes somente bofetões. Nunca precisou fazer muito esforço para ganhar dinheiro. Desde criança o pai lhe dera tudo e com a morte de seus pais e sem irmãos para dividir, herdou uma herança muito boa, não tendo que se preocupar até aquele presente momento com dinheiro. E assim, ele gastara boa parte da sua fortuna com esse "tipo de vida" que invejosamente algumas pessoas lhe dissessem que "não era assim que deveria levar uma boa vida", "há coisas mais importantes para se fazer". Pensava ele agora em voz alta e em um tom um tanto irritado:
_ Dane-se! Como gasto o dinheiro é problema meu e de mais ninguém! - e engoliu o último gole daquele líquido amarelo, ainda da sua primeira dose.

Passados quase duas horas depois de servida a primeira dose pelo bar man, olhando para o copo vazio pela terceira vez, se perguntava se devesse pedir uma quarta dose ou não. Algo dentro dele, uma intuição, ou mais provável que fosse seu instinto de sobrevivência, lhe dizia bem lá no fundo para cair fora dali e tomar a sua quarta doze bem longe dali, foi quando subitamente, despertado do seu mundinho provisório por uma mão em seus ombros. Era um toque suave e ao mesmo tempo sentiu-se apalpado pelos dedos delicados da mão que lhe tocava. Suas narinas aguçadas pelo cheiro do malte, notificaram-no de um outro cheiro. Um perfume feminino. Aquele aroma suave e excitante entrou em suas narinas fazendo seu cérebro esquecer completamente do flerte que estava tendo com aquele copo contendo o aroma de uísque. Sabia agora que era o mesmo perfume que havia sentido há poucas horas atrás, perto das escadas, quando passara pela entrada do bar. Soube exatamente naquele momento de quem era a dona do perfume e se conteve engolindo a seco antes de encarar a sua mais nova abelhuda.

_ Olá! – disse uma voz suave aveludada quase que perto dos seus ouvidos.

_ Olá. – balbuciou ele deixando escapulir o copo no balcão.

O barulho abafado do pesado copo sobre o balcão chamou a atenção do barman que lhe sorriu em sinal de que estava tudo bem.

_ Ops! – disse ela em tom brincalhão para ele.

Diante daquele “ops” ele sorriu para ela e se recompôs do embaraço. Afinal, ele era um homem experiente diante de tais situações e não havia motivo para se sentir um menino amedrontado diante daquela “gostosona”. Tratou de se recompor, focar sua atenção naquela mulher incrível e ficar o mais calmo possível.

_ Pensava em tomar outra dose, você me acompanha? – perguntou ele delicadamente a morena misteriosa.

_ Que bom você ofereceu, pois eu ia fazer o mesmo convite. Só temia você estar esperando alguma jovem encantadora e eu fosse dispensada. Aí sim, minha noite estaria completamente arrasada. – arreganhou os dentes para ele.

_ De modo algum. Posso lhe dizer com toda certeza que se tem alguém salvo nesta noite, este alguém sou eu! – retribuiu o sorriso.

Ele se sentiu bem com a resposta que lhe dera e gesticulou para que o barman aproximasse. Também ficou feliz por não ter mencionado o incidente lá fora.

_ Hum. Vejo que você é educado, se veste muito bem e sabe como tratar uma mulher.

_ O que toma? – perguntou ele para ela enquanto seus olhos afundavam nos seios fartos, de carne bronzeada e envolvente da mulher.

Ela não deu importância para o súbito desejo daquele novo amigo e respondeu delicadamente:

_ Martini, por favor.

O barman já estava à sua frente e esperava pelo pedido do cavalheiro. Era um homem jovial, de braços fortes em demasia para um simples barman e muito distinto também. Realmente Stawart gostava daquele bar, era o seu preferido, deixando de ir somente quando era convidado para alguma festinha particular que sempre acabava em bebidas excessivas, drogas e orgias.

_ Um uísque com gelo para mim e um Martini para esta encantadora morena.

_ Pois não senhor. Providenciarei imediatamente! – respondeu o barman investindo um olhar devorador sobre a morena e depois se afastou para a coparia.

Stawart não deu importância e tão pouco ficou desgostoso com o barman por ter flertado com a sua mais nova acompanhante, dada a beleza exuberante daquela mulher latina tirada de uma revista sexy para homens, era normal que ele também não resistisse aos encantos dela.

Ambos observavam em silêncio um ao outro, enquanto esperavam pelos seus drinques. Para ele os minutos de  silêncio que se arrastavam eram muito mais incomôdo.  Ele podia agora ver os detalhes daquele rosto incrivelmente belo, limpo, de pintura suave, batom rosa cintilante sobre aqueles lábios convidativos para um beijo longo e demorado. A silhueta da boca de lábios carnudos era realmente tentadora. Os olhos pretos tinham um olhar de felina igual ao da Cleópatra que assistira certa vez num filme em sua juventude. O frescor do perfume dela o envolvia completamente embriagando o seu ser. Ele poderia se apaixonar por ela naquele momento, casar-se e até querer ter filhos.

Ela por outro lado, sentia-se encantada com a inocência com que aquele homem de meia idade a fitava. Seu rosto de cupido, os cabelos bem cortados e curtos preenchiam a cabeça ovalada de feições robustas e ao mesmo tempo de alguns traços suaves, como a sua boca que igualmente ao que ele pensava dela, também era convidativa para um beijo. A pele morena oliva ficaria ótima numa mestiça de quinze anos. Com certeza ele é um homem bonito, educado, rico e que certamente fazia muito sucesso com as mulheres, finalizou ela.

Suas análises foram interrompidas pelo tintilhar do gelo que batia no copo trazido malabaristicamente numa bandeja de prata pelo barman que se aproximava deles. Eles se entreolharam mais uma vez e sorriram desaprovando aquele momento de auto-análise um para com o outro.

Riram se entreolhando por um momento.

_ Desculpe, mas foi inevitável não fotografar cada detalhe do seu rosto incrivelmente belo. – falou ele por fim quebrando o silêncio.

_ Obrigada! – respondeu ela, levantando o copo para brindarem.

_ Antes de brindarmos, preciso saber seu nome. Como posso eu brindar a nós sem saber o nome da mulher mais linda que já conheci?

_ Sandra. – respondeu ela sem demasia. E o nome do cavalheiro?

_ Stawart.

_ Hum... É americano?

Ele nada respondeu ao comentário dela e brindaram finalmente aquela nova amizade e ao sucesso dos dois, enquanto levantavam seus copos para o alto. Bebericaram alguns goles e ela beijou-o sem demora. Foi um beijo espontâneo e que não durou mais que um minuto. Ela o surpreendera mais uma vez mostrando sua determinação em querer tê-lo, talvez como um objeto para humilhar o seu namorado abrutalhado, talvez apenas para afogar suas mágoas naquela noite vazia, chuvosa e chata onde todos pareciam ter preferido ficar em suas casas mordiscando alguma coisa enquanto assistiam a um programa ou filme na TV.

E assim ele a teve pela primeira vez. Ela provara ser uma mulher fogosa, quente e vulgar na cama mesmo para uma primeira noite com um desconhecido. E isto fez dele seu escravo, desejando-a cada vez mais e mais das loucuras que ela propunha que eles fizessem juntos, a três e em algumas vezes com outros casais também.

Agora, no momento presente, com suas lembranças de há muito tempo atrás, ela lhe surgia a sua frente mais uma vez, já de cabelos escovados, maquiada e elegantemente vestida. Sandra aproximou-se de Stawart e viu que ele estava distante, com seus pensamentos sabe-se lá onde. Pareceu-lhe um menino sonhador cabisbaixo com as mãos no bolso da calça.

_ Estou pronta! – passou a sua mão suave em seu queixou como num gesto de carinho, beijando-lhe a face em seguida.

Ele sorriu para ela com os olhos mornos, adocicados em meio às lágrimas sem nada dizer. Ela quase o perdoara ao ver nele, aquele olhar terno de apaixonado, de uma inocência enterrada pelos sucessivos anos de libertinagem. Mas nada podia ser feito àquela altura do tempo, ele já era uma carta marcada e ninguém podia escapar do seu próprio destino. Ao invés disso, segurou fortemente os bagos dele sob a calça e falou-lhe maliciosamente:

_ Desejando minhas entranhas novamente Stawart?

Ele nada respondeu a ela novamente. Apenas deu-lhe um beijo suave na boca e disse desdenhosamente:

_ Então vamos querida! Mal posso esperar para esta tua festa.

Sandra enganchou-se nos braços de seu homem e assim eles deixaram o quarto de hotel. Ao caminharem pelo saguão, Stawart viu os ponteiros do relógio marcando dez horas da noite. Imaginou se as pessoas já estariam chegando a tal festa ou seria cedo de mais, pois ele particularmente desaprova ser um dos primeiros a chegar e ficar de bobeira esperando até que o ambiente estivesse totalmente animado. E desta vez, Sandra não demorara assim tanto para se arrumar como de costume.

O porteiro do hotel cumprimentou-os com um sorriso cordial sem nada dizer e mostrou-lhes o carro já devidamente estacionado com as portas abertas esperando por eles. O chofer esperou que ambos se acomodassem nos assentos e depois fechou a porta da Mercedes, também com o mesmo sorriso cordial sem nada dizer. Contornou por detrás do carro, tomou o seu lugar de motorista em silêncio e esperou que o seu patrão lhe dissesse para onde os levar.

Stawart preparou uma dose do uísque tirando uma garrafa já quase vazia do bar do carro, passou o endereço ao motorista que prontamente colocou o carro em movimento, e ingeriu o líquido amarelo puro de uma vez, desta vez sem gelo. Depois segurou as mãos de Sandra e apenas apertou-as junto às suas sem nada dizer, sem mesmo olhar para ela. Pela primeira vez ele desejou levá-la para outro lugar que não fosse aquele, onde terminariam em mais uma noite bêbados, drogados e quem sabe abraçados com estranhos. “Não desta vez”, desejava ele agora, ali estático com os olhos parados e fixos para o nada, desejando desta vez ir a um lugar tranqüilo, onde pudessem ficar a sós, ouvindo uma canção melindrosa enquanto ele a tomasse só para si. E desta vez não fariam sacanagem, apenas a amaria normalmente como qualquer outro casal apaixonado faz; beijando-lhe a boca suavemente, deixando suas mãos quentes percorrem as curvas do corpo dela por debaixo do vestido sedoso, acariciando a vulva umedecida delicadamente. Sua outra mão brincaria com o bico do peito até que eles ficassem enrijecidos. Certamente a boca dela desejosa o beijaria engolindo a sua língua em movimentos insinuantes, imitando sexo oral. Ele a amaria como uma pessoa normal e depois a pediria em casamento.

Entrementes, subitamente um ranger de pneus agarrando e arranhando o asfalto ecoou do lado de fora do carro, enquanto o seu corpo era jogado fortemente para o lado de Sandra, dado a “força g” que o movimento de rodopio e contínuo do carro lhes impunha. Stawart não soube dizer por quantas vezes o carro desgovernado girara pela auto-estrada. Um segundo movimento brusco do carro fez com que seu corpo fosse atirado para frente, vindo a bater a cabeça no vidro que separavam eles do motorista. Viu pelo canto do olho que ela também era arremessada para frente enquanto suas mãos tentavam inutilmente amortizar o impacto sobre o vidro. Passado todo estardalhaço dos rodopios e solavancos, o carro pareceu-lhe estar agora parado, porém não tanto quanto ele desejou, pois um terceiro e último movimento fez ele sentir um friozinho na barriga, igualmente de quando era criança e seu pai o empurrava na cadeira de balanço para que ele subisse o mais alto quanto fosse possível pelas correntes do balanço e ele berrava ao pai: “_ Mais forte!”. Seus corpos voltaram a se chocar com o vidro à sua frente e desta vez mais forte do que anteriormente, a ponto dele sentir uma dor aguda na testa. Pareceu-lhe que o carro estava capotando pela rodovia ou talvez estivesse sendo lançado para um precipício ou alguma ribanceira.

Ouviu o som de vidros sendo estilhaçados enquanto o carro girava, girava para lados diferentes. A última coisa que conseguiu ver foi mato sendo levado para dentro da janela do carro já quase sem os vidros e o cheiro forte de terra. Depois disso, Stawart perdera os sentidos.

                                                                             ****************


Stawart começou a despertar aos poucos. Os sons de vozes e risadas chegavam abafados aos seus ouvidos e ele não fazia a menor idéia de onde estava. Somente depois de alguns minutos, ali, estático e em alerta é que seus sentidos mais aguçados disseram-lhe que ele poderia estar dentro de uma caixa e muito bem fechado. E ao se lembrar do acidente, entrou em pânico. Pensava ele agora que poderia estar dentro de um caixão. E isso fez Stawart pirar de imediato! Entrementes, até aquele momento, não havia se quer mexido um músculo seu. E isto o deixou arrasado.

Uma melodia que lhe era familiar ecoava do lado de fora do suposto caixão em que ele pensava estar. Sabia também que estava deitado em algo macio, mas certamente, embora nunca tivesse se deitado em um caixão, sabia que os caixões eram macios. “Mas com os diabos aqueles pensamentos!” – pensou ele irritado. Achou por melhor, ouvir uma segunda voz que tentava acalmá-lo dizendo-lhe algo insistentemente para que se concentrasse na música.

“Ah, sim! A música!” A música lhe acalmava e mesmo não fazendo a menor idéia de quem seria aquela voz que gritava dentro da sua cabeça, ficara eternamente grato pela sensatez do conselho. Acatou-a de imediato e se deu por satisfeito.

A música chegava baixinho em seus ouvidos e dependendo das risadas ela era de imediata abolida. Mas quando conseguia se concentrar somente nela, sem as risadas e a falação exagerada, a música parecia ser de algum filme antigo, daqueles musicais da Broadway dos anos quarenta ou cinquenta. Mas não podia identificar quem cantava ou qual música era.

Onde estaria ele? O que havia lhe acontecido no acidente? Por que não conseguia se mexer? Um aoutra voz começava a lhe bombardear de indagações e seu estado de espírito mudara novamente de um “calmo-tranquilo” para o que ele mesmo chamaria de “um porre daqueles”. Sentiu um frio exagerado e uma nostalgia tomara seu espírito de modo que seu estômago se revirou até o ponto de sentir ânsia de vômito. Desejou chorar, porém, não conseguia. Tão pouco seu vômito saiu. Faltava-lhe ar. Uma angustia agarrou vorazmente sua garganta e não soltou mais. Sentiu que se ficasse ali por mais tempo iria morrer em poucos minutos por asfixia. “Se não for sua segunda morte!” – ouviu uma outra voz risonha dentro de sua cabeça falar-lhe sarcasticamente.

Uma outra, já não sabendo mais distinguir se a primeira, a conselheira ou a que ria dele, lhe fez lembrar da sua Sandra. “Sandra! Onde você está?” – perguntou ele não para ela ou para o nada como muitas das vezes nos indagamos para conosco mesmos. Mas perguntava para as diversas vozes que lhe faziam companhia dentro daquele suposto caixão. Nenhuma delas ousou responder-lhe e preferiram se calar.

_ Melhor assim! – disse ele em bom tom e tão clara que pode ouvir a si mesmo pela primeira. E isto o deixou muito feliz.
“Podia ouvir a sua voz” – pensava ele agora todo garboso e satisfeito.
“Mas será que realmente você ouviu a sua voz ou foi um lapso imaginário em virtude do forte stress que você está passando?
Maldito seja quem quer que tenha falado isso! – pensou ele.
De fato, ele não falara, apenas pensara novamente. Stawart se perguntava agora se não estaria ficando louco e o que mais poderia lhe acontecer.

Então, como num passe de mágica, ele encolheu-se todo na cama, igualmente a um feto dentro do ventre de sua mãe e assim ficou até adormecer pela segunda vez.

Como quem dorme doze horas seguidas e acorda com o corpo todo dolorido, assim Stawart se sentiu ao despertar pela segunda vez. Sua percepção, embora um tanto aturdida, foi voltando aos poucos como da primeira vez. Porém, com um diferencial muito grande ao da primeira vez; sabia que não estava dentro de um caixão e todas aquelas vozes, sem exceção havia se calado. Seu corpo repousava em uma boa e confortável cama de colchão bastante flexível. Os lençóis tinham um cheiro agradável e eram suaves e sedosos. Suas pálpebras pestanejaram, porém não conseguia abrir de todo os olhos. Preferiu então, não abri-los. Naquele momento sua vontade era o de voltar a dormir profundamente para não mais acordar.

Passado a dormência e estando o que para ele seria um estado “sóbrio”, Stawart voltou a ouvir as mesmas risadas e as conversas, só que desta vez, bem mais altas. Só a música não era mais a mesma; esta tinha agora uma batida mais forte, mais dançante. Era ritmicamente mais envolvente e isto fez dele um homem feliz e satisfeito.

Agora, ele se lembrava da festa que impecavelmente os dois se vestiram para ir. Lembrava-se do carro desgovernado pela auto-estrada. Dos solavancos e do frio na barriga que sentira quando o carro fora lançado para o nada. E só. Dali para adiante não se lembrava de nada. Se quer uma fagulha em sua imaginação.
_ Sandra? – chamou por ela sem muito entusiasmo.
Temendo que algo tivesse acontecido com a sua doce e amada Sandra, num impulso jogou os pés para fora da cama. Percebeu que vestia a mesma roupa que colocara para ir á festa - paletó, gravata, calça e sapatos. Ficou em pé em meio à escuridão do quarto não ousando dar se quer um passo. Sentiu um alívio ao ter a certeza de estava dentro de um quarto e não dentro de um caixão como imaginara anteriormente.

Permaneceu imóvel por um instante ouvindo a música, juntamente com as gargalhadas e o falatório. Talvez ouvisse a voz de Sandra ou quem sabe reconhecesse a voz de alguém. Não conseguindo reconhecer nem um e nem outro, tratou de caminhar pelo suposto quarto desejoso encontrar uma porta e sair dali. Em poucos passos à frente, suas mãos tocaram o que parecia ser uma porta. Tateou a madeira lisa por várias vezes em seus cantos, a fim de encontrar a maçaneta, mas não encontrara nada.
_ Com os diabos! Como pode uma porta sem maçaneta? – se questionou intrigado.
Apalpou mais uma vez as extremidades da porta e se decepcionou quando teve a certeza de realmente aquela porta não tinha uma maldita maçaneta. Isto fez com que Stawart passasse de um estado de espírito curioso, intrigado, para um estado lamentavelmente irritado e rancoroso.

Esmurrou a porta por diversas vezes sem que ninguém do outro lado ouvisse e viesse em seu socorro. Recostou-se a ela desanimado e caiu de joelhos no chão. Sentia agora um ódio que emanava dele mesmo. Como era possível aquilo estar acontecendo com ele, logo naquele dia em que haveria de pedir Sandra em casamento! Onde estaria ela? O que aconteceu com eles desde que perdera a consciência? Eram perguntas que o intrigavam e talvez fossem estas mesmas perguntas que o deixava naquele estado de espírito odioso.

Lembrou-se então, de que todo quarto haveria de ter uma janela. E este cômodo não seria diferente. Levantou-se apressado e caminhou até a cama. Ao tocá-la subiu na mesma e procurou o seu centro. Sabia que geralmente as janelas ficavam na cabeceira da cama ou do lado direito dependendo da inclinação da casa e dos pontos norte e sul, onde o sol nascia. Primeiro tentou a cabeceira da cama. Suas mãos ágeis tatearam as paredes de um lado para o outro e nada encontrou. Em seguida desceu da cama do lado esquerdo e, ainda com as mãos postadas na parede, andou de lado até encostar-se à outra parede do quarto. O fato daquele quarto não ter uma janela no lugar que seria o óbvio o deixara ainda mais rancoroso. Enfureceu-se de tal maneira que deixou escapar um som gutural em sua fala.
_Maldição!
Enquanto esmurrava a parede e os ossos de seu punho ficavam dormentes com o choque da colisão, para sua surpresa, a porta à sua frente se abria misteriosamente. Fitou - à por uns instantes não acreditando e lembrou-se que talvez a sua Sandra voltasse para ver como ele estaria. Talvez eles tivessem capotado perto do local da festa e os proprietários daquela casa os acolheram. Certamente num hospital ele não estaria; não permitiriam tais algazarras e músicas altas. Com estes pensamentos, Stawart se animou a aventurar para o lado de fora da porta, mesmo com aquela luz forte prateada que rasgava a escuridão do quarto através da pequenina fresta que se abrira.

Agora ele podia caminhar tranquilamente e até ver a cor do piso do quarto. Era um mármore azulado adornado de pequenas pedrinhas brilhantes que reluziam no chão. A cor da parede era um tom verde folha, muito suave e a cama era algo tirado de um motel suntuosamente do oriente, coisa de cinema. Havia um lustre de cristais no teto que poderia facilmente conter pelo menos umas vinte lâmpadas de pequeno tamanho. Para ele, não era um quarto comum, pois não havia guarda-roupa e muito menos criado-mudos nas cabeceiras da cama.
_ Sandra, é você querida? – perguntou receoso.
Ninguém lhe respondera. Adiantou-se para a porta pé ante pé. A luz prateada que insistia em rasgar a escuridão do quarto era bom, mas não permitia que ele visse do outro lado. Somente as risadas, as gargalhadas e a música dançante que envolvia o ambiente da casa eram mais sonoras do que nunca.
_ Que mal pode estar acontecendo neste maldito lugar estranho se todos estão alegres e se divertindo? – sorriu para si mesmo e aproximou-se da porta encorajado por esse novo modo de pensar.
_ Sandra? È você querida? – mais uma vez, ninguém respondera.
Resolveu abrir a porta e pagar para ver o que havia acontecido com ele, com sua Sandra e com o motorista. Estava determinado e resolveria todo aquele mistério de uma vez por todas. E assim o fez. Abriu-a e a luz prateada o cegou de vez. Agora enxergava menos ainda de quando estava na escuridão do quarto. Esperou ali mesmo até que as suas pupilas se acostumassem com a forte claridade, enquanto sua mão segurava a porta para que ela não se fechasse de todo. Não queria ficar ali trancado mais uma vez. Enquanto isso, as risadas, as gargalhadas e a música tornaram-se imensamente altas. Olhou para baixo e pode ver apenas seus sapatos pretos, lustrosos e sem nenhum arranhão. Depois viu o que poderia ser suas mãos e parte da barra de suas calças. Piscou duro por três vezes para que a dor que aquela claridade provocava em seus olhos tornasse amena. Ele não tinha nem um arranhão e isso o deixara bem mais calmo.

Então, ouviu vozes vindas do seu lado direito. Eram vozes de mulheres e riam muito. Ele tentou olhar para aquele lado, mas a claridade ainda ofuscava muito a sua visão. Preferiu então permanecer cabisbaixo até que aquelas mulheres se aproximassem dele. Seus ouvidos aguçados sentiam que as vozes se aproximavam cada vez mais perto. Ouvia também um som estridente arranhando o piso, mas não soube identificar o que poderia ser. Pareceu-lhe um pedaço de metal arranhando o mármore. Teve dúvidas e se concentrou nas vozes que agora estavam bem à sua frente. Levantou sua cabeça levemente, não para encará-las, mas o suficiente para poder enxergar alguma coisa.

Elas passaram por ele sem ao menos cumprimentá-lo, ignorando-o como se ele nem estivesse ali. Porém, elas falavam um idioma que ele desconhecia. Parecia russo, alemão, ou que raios de língua fossem aquela, ele jamais saberia.

Stawart trocava mais uma vez o seu estado de espírito, o de odioso, e passando para outro, o de intrigado e assustado. Seus instintos tornarem-se mais aguçado do que nunca e ao mesmo tempo cauteloso, como se estivesse sendo caçado por um predador impiedoso e voraz. Além do que, aquele arrastar de metal, que agora já não lhe parecia tão metal assim, mais qualquer outra merda de coisa arranhando o mármore do chão. Ele definitivamente estava agora irritadíssimo com toda aquela sua situação.
_ Que porra aconteceu comigo? – gritou ele para ninguém.
Seu cérebro agora trabalhava rápido, projetando seus últimos momentos junto de Sandra ainda no carro. Via aqueles últimos minutos que antecederam o acidente, onde o carro se desgovernara na pista. Ele havia engolido de uma vez só o seu drinque e em seguida tomara às mãos de Sandra junto as suas, desejando levá-la para um lugar onde eles pudessem ficar a sós. Lembrou-se que queria fazer amor com ela e em seguida a pediria em casamento. Mas alguma coisa o fizera dar ao motorista o endereço daquela maldita festa que ele nem se quer queria ir. Na seqüência, houve aquele ranger de pneus no asfalto, depois todo aquele safanão que os rodopios do carro lhe impora. Um último solavanco fez com que o carro despencasse para o nada numa queda livre sem fim. E agora ele estava naquele lugar estranho sem conseguir enxergar patavina. E isto era tudo.
_ Fim! Morri? – arreganhou os dentes em tom zombeteiro.
Esperou mais uns longos minutos e resolveu abrir os olhos novamente. Desta vez seus olhos doeram menos, a luz ainda o incomodava, mas não era de todo tão ruim como há poucos minutos atrás. Podia ver o chão do corredor, as paredes altas e até uma escadaria sinuosa de grade adornada por um metal, que possivelmente parecia ser de ouro.

Resolveu deixar o seu porto seguro, que até aquele momento era o quarto onde dormira sabe-se lá por quanto tempo, caminhou pelo corredor despreocupado até a escadaria. Sabia com certeza, de que se havia realmente uma festa lá em baixo, todos estariam lá, exceto claro, pelas duas supostas “sapatas” que possivelmente fizeram algum tipo de sacanagem num quarto ao lado do que acabara ocupando.

Criou coragem, encheu os pulmões de ar, desceu os primeiros degraus daquela escadaria toda adornados de particularidades gótica e imperial do século dezoito e o que se viu era inacreditável. O lugar era de um luxo demasiadamente exagerado, mas de bom gosto. Todos que ali estavam eram pessoas lindas, elegantes e maravilhosas. As mulheres bem vestidas com seus vestidos estonteantes, de grifes caríssimas. Os homens de smoking elegantíssimos. E até mesmo os garçons estavam elegantemente bem trajados para executarem as suas funções serviçais. Reconheceu de imediato o barman. Era o mesmo do Calton Blues. Só não conseguiu lembrar-se do nome dele. Porém isto não importava naquele momento. O que ele queria agora era ir até lá e pedir uma dose dupla do bom e velho uísque com gelo. E depois iria procurar pela sua Sandra.

Encontrava-se ele agora totalmente animado. Seu estado de espírito era o de alguém que acabara de ganhar sozinho na loteria uma fortuna. Passou por diversas pessoas que o cumprimentavam com sorrisos escancarados, parecendo que todos o conheciam muito bem. E todos muitos cordiais para com ele, sorriam elevando suas taças de cristais finos como que brindando a sua sorte de estar vivo. E certamente todos ali o conheciam muito bem, pois não havia ele entrado na festa desacordado e possivelmente carregado até aquele quarto “muquifento”? Pouco importava para ele aquelas pessoas. Logo ele estaria acompanhado da sua Sandra e os dois desfilariam por entre aquelas pessoas mostrando que tudo estava muito bem.

Encostou-se no balcão do bar e o barman imediatamente o cumprimentou com um sorriso dissimulado.
_ O mesmo de sempre Senhor Stawart? – perguntou o barman arreganhando os dentes.
_ Sim meu caro. Mas desta vez, por favor, duplo. – respondeu ele secamente.
_ Certamente. – e afastou-se para a coparia.
Stawart aproveitou para olhar um pouco mais para aquelas pessoas interessantes e para aquele lugar que mais parecia ser um palácio, iguais aos daqueles malditos árabes donos de petróleo. Não reconhecia nenhum rosto, nem os das mulheres e tão pouco a dos homens. Também não avistou a sua Sandra.
_ Onde estará ela? – se perguntou queixosamente para si mesmo.
O barman aproximou-se dele e com um leve toque em seu braço mostrou que a bebida ficara pronta. Era um copo maior do que habitualmente ele estava acostumado a ver em bares e este parecia ser de um cristal fino que a bebida ficava muito mais bonita. Até o gelo parecia ser diferente, num tom esverdeado. Mas foi só até ele tomar o primeiro gole.
_ Hei! Você viu a Sandra; aquela morena que costuma estar comigo lá no Calton Blues?
O barman virou-se para ele e encolheu os ombros escondendo o pescoço enquanto seus braços se abriram a meio fio expondo as palmas das mãos para cima.

Aquele gesto bastou para Stawart entender que o barman não vira sua Sandra. E isto era difícil de acreditar, já que ela era uma mulher incrivelmente linda e difícil de não ser notada, mesmo para o padrão daquela festa. Ela parecia ser até uma estrela de Hollyood.

Olhou mais uma vez para aquele copo fantástico e bebericou um pouco da dose de uísque. Não sentiu gosto algum e tão pouco parecia com o de habitual, parecendo-lhe mais para uma água sem gosto também de nada. “_ Pelo menos, água tem gosto de água. Mas esta merda não tem gosto de nada!” Exclamou ele em seu pensamento.

Talvez fosse a sua boca ou talvez o barman se enganasse quanto a sua bebida. E resolveu tomar mais um gole. Desta vez um gole bem caprichado. A bebida desceu goela abaixo e mais uma vez, não sentiu gosto algum. E agora o que intrigava não era somente a falta do gosto do malte que o uísque habitualmente tinha, mas o que intrigava Stawart era o fato daquela bebida conter uma enorme pedra de gelo, o copo estar suado, porém a bebida ainda assim não estava gelada e tão pouco quente. Era como se ele tivesse perdido um dos cinco sentidos, no seu caso o paladar. Pelo menos, ainda sentia o cheiro das coisas, via as pessoas, ouvia a música e podia sentir que segurava aquele maldito copo em suas mãos.
_ Barman! – gesticulou ele para que o homem aproximasse.
_ Pois não Senhor?
_ Parece-me que sofri um acidente há pouco e estou me sentindo um tanto estranho. De modo que não quero culpá-lo por esta bebida estar sem gosto algum. Tão pouco me lembro do seu nome, me desculpe, mas acho que bati a cabeça várias vezes no acidente. Sendo assim, você poderia me fazer um favor, provando desta bebida que você mesmo preparou?
_ Certamente Senhor Stawart. Terei maior prazer em prestar esse favor. – respondeu cordialmente para o homem com cara de abobado à sua frente.

Stawart estendeu a bebida para o barman para que ele também a experimentasse e certificasse de que ela realmente não tinha gosto algum e assim ele não parecesse um tolo. O barman degustou de um gole grande do líquido dourado, mexeu-o dentro de sua boca e o engoliu. Depois acabou de vez com o que sobrara dentro do copo. Fez um “haaa” seguido de uma careta e olhou para o homem que continuava com cara de abobado à sua frente, olhando perplexo como quem espera a notícia do ano.
_ Sinto discordar do senhor, já que é um grande apreciador desta bebida. Mas ela estava deliciosa. E a propósito, meu nome é Béne! Lembra-se agora?
_ Sim. Desculpe por ter me esquecido do seu nome. Mas para quem não reconhece o gosto de um bom Scot, certamente haveria de esquecer o nome de um amigo! – retrucou brincalhão Stawart para o barman e ambos sorriram da sua desgraça.
_ Vou lhe preparar outra dose e lhe garanto que depois da terceira o senhor estará familiarizado com ela novamente. – suas sobrancelhas contorceram de modo que quase se encontraram, deixando uma interrogação em seu semblante.
_ Assim espero meu amigo... – fez força para se lembrar do nome do barman novamente e ficou constrangido por não se lembrar.
_ É Béne. E não se preocupe em breve você se lembrará de tudo e certamente encontrará sua namorada, a senhora Sandra.

Ele nada respondeu diante deste comentário. Apenas indignou-se consigo mesmo por não saber onde estava sua Sandra. Não sentir o gosto do maldito uísque era coisa pequena para se preocupar naquele momento e tão pouco se lembrar do nome do maldito barman lhe interessava. Mas onde estaria a sua Sandra?

continua... (em construção)